Último post do ano enquanto espero o GvW aparecer aqui e me ajudar com o backup do meu Mac (que fica no Brasil). Amanhã partimos pra Zurich. Depois de todas as despedidas (em SP e em BH) e da maratona "todo mundo junto no shopping trocando presente ao mesmo tempo agora", tudo calmo.
Espero que o hiato de comunicação seja curto. Se tudo der certo na segunda mesmo já pego o novo notebook no Google.
(só pra deixar registrado, foi uma merda trocar os presentes na Hering. Já ná Timberland e na Siberian foi bem bacana).
Hoje foi a defesa do mestrado. Deu tudo certo. Agora sou Mestre em Engenharia de Sistemas, mas pode me chamar de Mestre. Na prática não muda muita coisa, mas na teoria...
Ahn, a teoria! Fui visitar meu avô, e ele perguntou o que que eu ia fazer lá na Suíça. Eu falei que ia fazer a mesma coisa que aqui. Aí ele perguntou o que eu fazia aqui. Meu avô nunca usou um computador e não sabe o que é internet direito. Ele tem uma versão de 89 da Barsa, que não tem o verbete "Internet", mas tem "Suiça", então a gente chegou lá e ele já sabia que na Suíça se fala uma caralhada de linguas diferentes. Bom, fui tentar explicar pro meu avô o que que eu faço, e saiu assim:
"A internet é tipo uma biblioteca gigante, com bilhões de livros. A diferença pra uma biblioteca normal é que cada um pode escrever o próprio livro e colocar em qualquer estante. Usando o computador, a gente consegue andar pela biblioteca e ler qualquer livro. O problema é que, como tudo é uma grande bagunça, fica difícil achar os livros que se quer. O que o Google faz é ficar andando pelas estantes o tempo todo e lendo os livros pra poder saber onde eles ficam e do que eles tratam. Aí, as pessoas vão até o Google e perguntam aonde encontrar livros sobre a Suíça, sobre impostos federais ou sobre anal-fisting (devo ter usado outro exemplo na hora)."
Nessa hora ele me interrompeu e disse: "ahn, vocês prestam serviço?". E eu disse: "Sim, mas a gente não cobra". "Fernando, meu neto, eu sou velho mas não sou burro, ninguém faz nada de graça nesse mundo".
"Além de lembrar aonde ficam os livros, o Google faz mais uma coisa. A gente guarda anuncios. Por exemplo, pode ter alguém querendo vender uma geladeira, que avisa o Google disso. O Google guarda essa informação. Quando alguém vira pra ele e diz "estou procurando uma geladeira pra comprar" a gente mostra uns livros e diz pra pessoa "olha, a gente ficou sabendo de alguém que quer vender geladeira". Quando a gente dá esse aviso e a pessoa se interessa, a gente cobra do dono da geladeira uma gaita."
"Ahn, mas então é isso mesmo que eu tinha dito. Vocês prestam um serviço".
Depois ele quis saber o que eu fazia exatamente, o que foi um pouco mais difícil de explicar. Mas isso fica pra outra vez.
Desde cedo, meu telefone tem recebido chamadas de um número estranho, que sempre desligava depois de eu atender. Pensei que fosse algum amor não-correspondido ligando para ouvir a minha voz dizendo somente um "alô..." seguido de um "alô, putaqueopariu, alô..."
Não era. Na quinta vez, falou um rapaz da Oi (uma das cinco famílias de telecomunicação no Brasil): "é sobre o desligamento de sua linha residencial e algumas promoções". Disse que sim, estava desligado, e não, não tinha menor vontade de ouvir promoção nenhuma. O rapaz insistiu e eu disse que tinha me mudado de BH. Ele perguntou se eu tinha me mudado de Minas também? Disse que sim.
"Mas o senhor trancou sua casa?". Meu amigo - eu falei - eu não te conheço e não te devo satisfação do que eu faço com a minha vida. "Desculpe, senhor. Mas eu tenho uma promoção... o senhor tem telefone com chip?". Cara, que papo é esse? Eu não tenho que te dizer nada, não te conheço, você não paga minhas contas, porque que tenho que te dar satisfação da minha vida? Não te interessa se eu tenho chip, processador ou qualquer outra merda. "Desculpe qualquer coisa, senhor".
O senhor não desculpa.
Despedida muito bacana de BH, quase fechamos o restaurante: tanto pela lotação máxima, como pelo prejuizo que o cara deve ter tomado depois de tanta comida. Depois, mudança para São Paulo. Deu tudo certo, o que quer dizer que foi uma merda completa mas chegamos bem e com todas as coisas.
Depois de 2 anos pagando aluguel, a dona do apartamento veio para a cerimonia de devolução das chaves e acerto final das contas (incluindo um valor obsceno para supostas benfeitorias no apto). Trouxe consigo a conta de luz do último mês, que deveríamos pagar. Tudo certo, mas a conta tinha sido emitida dia 3 e estávamos indo embora dia 7. Toca a dona fazer regrinha de três para incluir os 4 dias. Todos os 10 reais a mais. E além disso, ela errou a conta.
Em São Paulo, estamos em um hotel bacana na Oscar Freire. A piscina fica na cobertura e tem paredes de vidro, por onde dá pra ver um belo pedaço da cidade. A vizinhaça já conhecíamos, mas foi legal o passeio de hoje à tarde.
Falta pouco, mas estamos indo.
ps: Lu Barbe voltou para Paris, e não tem mais telefone nem e-mail. Pra rebater, dei um cano hoje na Cecile, que não tinha nada com o canard, mas levou assim mesmo.
Curta metragem desse cara aqui.
Tom Zé e sua Exegese de
Tô ficando atoladinha: meta-refrão, microtonal e pluri-semiótico.
Ad hominem fallacy fallacy
Escritório do Einstein em Abril de 1955, mês em que ele morreu. Dos arquivos da Life no Google.
Em resposta à discussão bacana que está rolando no LLL sobre racismo e preconceito no Brasil, aqui vai minha contribuição.
Muitas pessoas bem intencionadas parecem acreditar que não há racismo no Brasil. Que o que existe no Brasil é preconceito sócio-econômico, mas não racial. Que a polícia pára preto na rua somente porque pretos costumam ser mais pobres e pobres costumam ser mais ladrões (como se isso em si já não fosse preconceito).
Que o motivo pelo qual há menos médicos negros e mais faxineiros negros é devido à "pobreza fundamental" que começou lá na escravidão. Que, penas das penas, apesar desse nosso país não dar oportunidade igual a todos, fazer o que?, se "eles" trabalharem bastante vão conseguir o sucesso que "nós" conseguimos logo logo.
O que me fez pensar. Será que há mesmo uma pobreza fundamental por trás de tudo isso? Será que o abismo social existente no Brasil é a explicação mais correta para as diferenças entre as possibilidades de brancos e negros? Vejamos.
Consultando dados da Síntese de Indicadores Sociais feita pelo IBGE com dados de 2008, consegui algumas informações bacanas. Pra começar, veja o gráfico da diferença entre salários médios de brancos e pretos no Brasil.
Salário por uma hora de trabalho
Média nacional entre todos
os graus de escolaridade.
Ele indica que, em média, brancos ganham 78% a mais do que negros em nossa república racial. O principal argumento que costuma-se ouvir sobre esse gráfico é "mas isso só mostra que negros são mais pobres, não que haja preconceito". Mesmo? Então vejam isso aqui:
Salário por uma hora de trabalho
por anos de estudo
Média nacional por
número de anos de escolaridade.
Aqui, o argumento da diferença sócio-econômica cai por terra. O que o gráfico mostra é que brancos ganham 32% a mais do que seus pares negros com o mesmo grau de escolaridade. E o problema é disseminado por todas as faixas de estudo. Do pedreiro ao professor, do faxineiro ao gerente, pretos ganham menos que brancos no Brasil.
O preço da cor
R$337mil
é quanto um negro, com mais de 12 anos de estudo e com um salário de R$ 1.800, vai receber a menos de salário durante sua vida devido à sua cor.
O racismo tem preço. Mas "nós", ricos, branquinhos e limpinhos não pagamos por ele.
Diferença entre salários de brancos e negros por estado.
Quanto mais claro, maior a diferença entre salários de brancos e negros.
O estado com salários mais equivalentes é Roraima, onde negros ganham o mesmo que brancos (chegando a ganhar mais na faixa de trabalhadores mais qualificados). Porém a igualdade racial dura pouco. No Espírito Santo, o segundo estado com menor desigualdade racial, a diferença média entre salários já é de 30% e vai piorando até chegar em Alagoas. No estado, o mais desigual do país, um negro recebe duas vezes menos que um branco, especialmente na faixa de trabalhadores mais qualificados!
O nome disso tudo? Preconceito. Racismo. Um racismo profundo em nossa sociedade que faz com que menos oportunidades sejam criadas para negros. Um racismo escondido que faz com que pessoas com capacitação equivalente sejam separadas entre os felizes escolhidos e aqueles que serão postos à margem da sociedade e depois eles mesmos culpados por sua tragédia.
correção: Arrumei duas frases que o Leo indicou.