A gincana

A Camila escreveu esses dias um negócio fora de série.

As pessoas vivem no mundo e fazem coisas o dia todo. Acordam às seis da manhã para estar no trabalho às oito e ali ficam até às sete da noite, para chegar em casa às nove. Ou, em outros casos, chegam no trabalho às oito, trabalham até as nove, saem para uma reunião às onze, almoçam em quinze minutos, têm uma aula do outro lado da cidade, voltam para a instituição xis e depois seguem para seu empreendimento particular ípsilon. As pessoas têm uma agenda-gincana: um dia na vida delas é como um vídeo-game ou competição lúdico-esportiva em que você tem de ir progredindo pelas fases. Passa a fase do trânsito, passa a fase do paciente surtado, passa a fase do almoço no quilão. Isso quando elas não têm filho e marido para dar conta.

Continue lendo aqui a agenda-gincana da Camila.

Fernando contra o clima

Por falar em Ocupar e Resistir, deixa eu contar minha briga contra as entidades meteoroilógicas de Zürich. Alguém comentou que hoje termina a Primavera e começa o Verão por aqui. Pra comemorar, sexta-feira foi o dia do Piquenique anual do trabalho. Choveu muito o dia todo. Alguns desistiram de ir. Mas eu não. Eu percebo o que está em jogo.

Nessa horas é preciso colocar a moral à frente da conveniência. Sexta-feira, chuva, quatro da tarde, preguiça. Tudo isso tem que ficar no tal do segundo plano. Estamos no Verão. E no Verão, todos nós - homens, mulheres, jornalistas e advogados - temos o direito de sentarmos na grama para ler, enquanto prestamos atenção nas garotas deitadas de biquini. É um direito sagrado, tipo "we hold these truths to be self-evident" e coisa e tal.

É preciso mostrar aos responsáveis que não iremos abrir mão dessa liberdade tão cara a nós. É preciso sair às ruas. Viver o verão independente do clima, para que todos saibam que não estamos conformados a essa situação. Que lutaremos bravamente.

Fizemos churrasco na chuva. Ontem, passei protetor solar e fui andar de bicicleta sem casaco e sem conseguir enxergar nada. Parei no parque na beira do lago, sentei na grama encharcada de água e rebeldia. Ocupo e resisto. Enquanto for verão ou até eu pegar um resfriado.

Okupa y Resiste

Vista de Barcelona a partir do Parque Güell:

Desde o dia em que subi ao parque pela primeira - e até agora única - vez, adorei a frase. Gosto da situação de encontrar um statement logo na cara da cidade. Mas gosto mais ainda da forma com que a frase usa palavras leves pra apresentar uma idéia forte. Deixa eu ver se me explico. Ocupar não é tomar, não é pegar, não é conquistar. Resistir não é lutar, brigar, não é nem mesmo enfrentar. Ainda assim, "ocupa e resiste" traz uma idéia de propósito e de objetivo que não está explícita nas próprias ações sugeridas. É como - esticando um pouco as idéias - se a força da expressão estivesse não nas coisas que se quer (no caso, ocupar e resistir) mas no fato de se querer alguma coisa, de se ter esse propósito, esse plano. Faz algum sentido? Pois é, é isso que me encanta aí.

Para salvar a quinta-feira

Durante uma discussão hoje no Biscoito sobre homofobia, o Idelber disse um negócio que você aí precisa ouvir:

E tem mais uma coisa. Tem que acabar com essa história de que, todas vezes que apontamos a misoginia, a homofobia, os estupros de crianças, a luta anticiência, os séculos de lambança obscurantista, sempre aparecer alguém para dizer "ah, tem que respeitar minha religião".

Tem que respeitar religião coisa nenhuma. Idéias não foram feitas para serem "respeitadas". Idéias foram feitas para serem debatidas, questionadas, copiadas, circuladas, disseminadas, combatidas e defendidas, parodiadas e criticadas.

Seres humanos merecem respeito. Pregação contra o que seres humanos são, por sua própria essência e identidade (gênero, raça, orientação sexual) não pode ser confundida com sátira antirreligiosa. A maioria dos carolas adora confundir sátira antirreligiosa com ataque misógino ou homofóbico. Não entendem que sua superstição é, essa sim, uma opção.

Perfeito. Salvou essa quinta-feira bizarra.

Petrobras contra o Poderoso Chefão

Tava preparando uma coisinha nova sobre o lance da Petrobras mas não consegui resistir. Vejam essa gorfada do Kennedy Alencar na Folha:

Quando um jornalista procura a empresa antes de publicar a reportagem, dá a ela a chance de corrigir erros, precisar informações e até de matar uma pauta que não para em pé.

Esse procedimento não está na letra da lei. É resultado do processo da modernização da imprensa, de seu amadurecimento como instituição que, nas democracias, deve fazer da forma mais responsável possível a busca da verdade.

A imprensa erra? Erra. A imprensa está cheio de estúpidos? Está. Há parcialidade em alguns veículos? Inegável.

No entanto, a imprensa brasileira vem melhorando o padrão de seus procedimentos. A decisão da Petrobras quebra uma relação de confiança, digamos assim, necessária à liberdade de imprensa e ao direito de a empresa expor o contraditório.

O que o jornalista não entendeu ainda, ou entendeu e tá se fazendo de idiota, é que essa responsabilidade, de precisar informação, matar pauta ruim, corrigir erros é responsabilidade dos jornais! A responsabilidade da Petrobras é achar pré-sal, desenvolver tecnologia de plataforma de petróleo, não de ficar esclarecendo pauta. A responsabilidade de ter uma pauta correta é só dos jornalistas.

A velha mídia está tão acostumada a utilizar a lei de imprensa e de liberdade de expressão a seu favor, independentemente da situação, que esqueceu que essa parte é uma de suas obrigações no direito da sociedade à informação. São eles que recebem pra não publicar bobagem, não a Petrobras.

Jornalistas serão desestimulados a procurar a Petrobras e a abrir o sigilo de suas informações. Mais: algumas informações não precisariam, necessariamente, ser checadas com a empresa. Se o jornalista tem segurança de sua informação, pode e deve publicá-la. Se errar, arcará com o ônus. Mas a boa prática jornalista recomenda ouvir o outro lado. Em casos de suspeita de corrupção, é obrigatório oferecer o direito de defesa. Mas essa oferta poderá ser feita de forma limitada a fim de a preservar informações do jornalista.

A imprensa e a empresa perdem, mas quem perde mais? Sem dúvida, o público.

A parte anterior pode ser atribuida a ignorância do locutor. Mas esse parágrafo é mal-caráter até a espinha. É uma ameaça. É a versão alencariana para o "se você não pagar a proteção pode ser que algum bandido venha assaltar a sua loja" dos filmes de gângsters. O que o sr.Alencar diz é, em bom português, que se a Petrobras insistir nesse modelo, pode ser que saiam matérias sem a devida checagem e não vai ser culpa dos jornais. Gângster! A responsabilidade com o público e com a qualidade da notícia é só sua e do seu jornal, de mais ninguém.

O argumento de que a imprensa dá o erro na manchete e se desculpa no pé de página é um bom argumento. Mas há jornalistas e há jornalistas. Há veículos e há veículos. O blog poderia registrar um ranking de quem, do seu ponto de vista, errou. E existe uma Justiça no Brasil que tem sido cada vez mais rápida e dura com a imprensa na concessão de direitos de resposta e reparações materiais.

Sim, há veículos como a Folha de SP que dá manchete mentirosa, se desculpa no pé da página e não merece o nosso respeito. Só esqueceu de dar o nome, né?

Na democracia liberal, as empresas buscam melhorar suas relações com a imprensa. Como os políticos entenderam que precisam dialogar com a imprensa para exercer o poder, as empresas necessitam fazer o mesmo para lucrar.

Gângster denovo! "Os políticos já aprenderam, e vocês?" Tentativa de coação! Ataque velado. É isso que esse sujeito está fazendo em nome dos jornais. E estão tão imersos na loucura de poder que não perceberam que a cada vez que usam as suas "relações para exercer o poder" perdem um pouco mais da credibilidade que tinham.