Humanidade
Humanidade vinha andando pela rua quando viu sra. Verdade caminhando na direção oposta. "Bom dia, senhora Verdade", disse Humanidade tirando o chapéu. Ela fingiu que não ouviu e continuou andando reto. "Grossa, mal-educada".
Humanidade é cara sério, não tem vontade pela metade. "Lili, Lili", balançou um pedaço de carne enquanto chamava a cadela. Liberdade veio abanante, imaginando a refeição que já a aguardava. Quando chegou na distância adequada, Humanidade endireitou um chute na barriga de Liberdade que a fez ser jogada para o outro lado da rua, sem ar. Humanidade é cara sério.
Humanidade arrumou emprego em gerenciamento estratégico. Trabalha de terno e ganha bem. Desde que morou no Rio, sabia parecer que estava ocupado, principalmente quando não estava. Sucesso era não fazer ninguém trabalhar. "Eu engano meu chefe, tu engana o teu". Humanidade comprou casa em Higienópolis, passeia pelo shopping com Lili mas tem nojo de limpar o cocô da cadela.
Humanidade foi passar as férias em Paris. Foi de pacote, três dias e quatro noites. O segundo dia era uma passagem pelos "principais museus" da cidade. Levou máquina digital e um caderninho onde anotou previamente frases prontas para falar quando estivesse em frente a algumas obras. "Que beleza de quadro. É uma clara referência à segunda guerra". Humanidade não gosta de passar por ignorante.
Humanidade gosta de tudo muito correto. Pede dois pães, mas em casa come eles com requeijão. Humanidade não sabe muito mais português do que qualquer um, mas tira sarro quando alguém fala diferente: acha todo mundo bastante ignorante. Quando está no bar com os amigos, Humanidade acha graça em pedir "dois pastel e um chops, como paulista fala". Humanidade tem poucos amigos.
(continua...)

