A novela cor-de-rosa

"@biajoni, faz favor de me vender uma cópia do Buceta em PDF pra eu poder ler aqui no estrangeiro?" Instantes depois, recebo um email com o livro: "Espero que divirta-te". Tinha acabado de contrair minha terceira dívida com Luiz Biajoni.

Já tinha lido os dois livros anteriores do Bia: Sexo Anal e Virgínia Berlim. VB é algo fora do normal, um livro de 44 páginas que passam como se fossem 2 e fica como se tivesse 400. Há cenas que nunca mais me saíram da cabeça:

E fiquei ali bebendo, deitado no chão e estava passando para o sono quando, de súbito, bateram à porta. Levantei de um pulo, bêbado e nu. Chutei, no salto, o copo – esparramando a bebida, um pouco de gelo e cacos. Tentei correr para o quarto em busca de algo para me vestir e pisei em um enorme pedaço de vidro. Gritei. E ouvi, do outro lado da porta, alguém me chamar, perguntando se estava tudo bem. E era ela! Minha cabeça rodou de dor e espanto. Não podia ser. E. Corri assim mesmo, na ponta dos dedos, vesti um calção e abri, e ela... E era ela mesmo, sorriso avoado, de surpresa, com um bom cheiro e uma presença miúda, abissal. Meus cabelos desgrenhados se ouriçaram e suas sobrancelhas arquearam ainda mais diante da cena: meus olhos inchados e úmidos da dor, o pé escorrendo sangue.

Também foi com VB, ou com o Bia, que descobri Daniel Lanois. Um achado assim, não é qualquer dia que se recebe. É minha primeira dívida.

Li Sexo Anal em uma sentada, por assim dizer. Lembro de ter acabado de ler, colocado o impresso do PDF de lado e pensado: "esse homem sabe bastante sobre alguma coisa importante que eu não sei". O que a gente costuma chamar, talvez com um pouco de arrogância, de gênio.

Bia sabe contar histórias. Mas isso quase qualquer um consegue. Bia consegue fazer você se sentir no interior de São Paulo, andando pelas ruas, sentindo os cheiros. E faz isso sem nunca descrever um único local. Bia consegue nos transportar para esse mundo só falando das pessoas que vivem ali.

É difícil não gostar de Buceta. A trama corre fácil, os personagens são ótimos. A história é menos policial do que era Sexo Anal, mas isso abre mais tempo para que nós possamos prestar atenção nas personagens.

E essa é, na minha opinião, a grande qualidade do Bia e de sua Buceta. Todos os personagens do livro, do motoboy cliente do travesti até o marido broxa, são interessantes. Todos eles fazem você ter vontade de poder sentar num boteco em Limeira, convidá-los para o almoço e dividir uma conversa que dure uma tarde toda.

E essa curiosidade, essa inocência de querer ser enganado, de acreditar que aquelas pessoas existem de fato é uma das coisas mais importantes numa história. Os livros do Bia me fizeram entender isso. Minha segunda dívida.

Aguardamos todos ansiosos que Bia decida fechar sua trilogia. E que siga em frente. Repito o que disse o Paraíba de verdade (ou de mentira?): O Bia é um dos melhores novos escritores brasileiros.

(Se você ainda não leu, pára tudo e vai lá comprar os livros. Custa o mesmo que um entrada cheia no cinema e você não corre o risco de ser enganado por uma porcaria qualquer).