Petrobras contra o Poderoso Chefão
Tava preparando uma coisinha nova sobre o lance da Petrobras mas não consegui resistir. Vejam essa gorfada do Kennedy Alencar na Folha:
Quando um jornalista procura a empresa antes de publicar a reportagem, dá a ela a chance de corrigir erros, precisar informações e até de matar uma pauta que não para em pé.
Esse procedimento não está na letra da lei. É resultado do processo da modernização da imprensa, de seu amadurecimento como instituição que, nas democracias, deve fazer da forma mais responsável possível a busca da verdade.
A imprensa erra? Erra. A imprensa está cheio de estúpidos? Está. Há parcialidade em alguns veículos? Inegável.
No entanto, a imprensa brasileira vem melhorando o padrão de seus procedimentos. A decisão da Petrobras quebra uma relação de confiança, digamos assim, necessária à liberdade de imprensa e ao direito de a empresa expor o contraditório.
O que o jornalista não entendeu ainda, ou entendeu e tá se fazendo de idiota, é que essa responsabilidade, de precisar informação, matar pauta ruim, corrigir erros é responsabilidade dos jornais! A responsabilidade da Petrobras é achar pré-sal, desenvolver tecnologia de plataforma de petróleo, não de ficar esclarecendo pauta. A responsabilidade de ter uma pauta correta é só dos jornalistas.
A velha mídia está tão acostumada a utilizar a lei de imprensa e de liberdade de expressão a seu favor, independentemente da situação, que esqueceu que essa parte é uma de suas obrigações no direito da sociedade à informação. São eles que recebem pra não publicar bobagem, não a Petrobras.
Jornalistas serão desestimulados a procurar a Petrobras e a abrir o sigilo de suas informações. Mais: algumas informações não precisariam, necessariamente, ser checadas com a empresa. Se o jornalista tem segurança de sua informação, pode e deve publicá-la. Se errar, arcará com o ônus. Mas a boa prática jornalista recomenda ouvir o outro lado. Em casos de suspeita de corrupção, é obrigatório oferecer o direito de defesa. Mas essa oferta poderá ser feita de forma limitada a fim de a preservar informações do jornalista.
A imprensa e a empresa perdem, mas quem perde mais? Sem dúvida, o público.
A parte anterior pode ser atribuida a ignorância do locutor. Mas esse parágrafo é mal-caráter até a espinha. É uma ameaça. É a versão alencariana para o "se você não pagar a proteção pode ser que algum bandido venha assaltar a sua loja" dos filmes de gângsters. O que o sr.Alencar diz é, em bom português, que se a Petrobras insistir nesse modelo, pode ser que saiam matérias sem a devida checagem e não vai ser culpa dos jornais. Gângster! A responsabilidade com o público e com a qualidade da notícia é só sua e do seu jornal, de mais ninguém.
O argumento de que a imprensa dá o erro na manchete e se desculpa no pé de página é um bom argumento. Mas há jornalistas e há jornalistas. Há veículos e há veículos. O blog poderia registrar um ranking de quem, do seu ponto de vista, errou. E existe uma Justiça no Brasil que tem sido cada vez mais rápida e dura com a imprensa na concessão de direitos de resposta e reparações materiais.
Sim, há veículos como a Folha de SP que dá manchete mentirosa, se desculpa no pé da página e não merece o nosso respeito. Só esqueceu de dar o nome, né?
Na democracia liberal, as empresas buscam melhorar suas relações com a imprensa. Como os políticos entenderam que precisam dialogar com a imprensa para exercer o poder, as empresas necessitam fazer o mesmo para lucrar.
Gângster denovo! "Os políticos já aprenderam, e vocês?" Tentativa de coação! Ataque velado. É isso que esse sujeito está fazendo em nome dos jornais. E estão tão imersos na loucura de poder que não perceberam que a cada vez que usam as suas "relações para exercer o poder" perdem um pouco mais da credibilidade que tinham.


