Cartola

Conta-se que, no final do século 19, na paróquia de São Bento do Rio, as missas vinham se tornando insuportavelmente quentes, e parte dos fiéis de domingo já compareciam vestindo trajes de banho.

O padre, indignado com o desrespeito à Santíssima Trindade, certo dia ordenou que os fiéis viessem, a partir do domingo seguinte, trajados a rigor, com a seriedade que merecia nosso Senhor: "Vestido às damas, terno e cartola aos senhores".

Eis que domingo seguinte, igreja lotada, homens e mulheres abarrotados e suados, a missa prosseguia como de costume. Quando do fundo da câmara, um gordo homem, exausto pelo calor, gritou: "Às favas, as cartolas". E pouco a pouco, homens e mulheres esvaziaram a igreja, e a missa acabou.

Igreja vazia, sobraram suados o padre e seu Demóstines, fiel freqüentador da paróquia, que tinha como regra terno e cartola desde as primeiras missas, ainda acompanhadas do pai.

Seu Demóstines, indignado, consolou o Padre. Onde já se viu coisa assim? Um claro desrespeito à casa do Senhor. Pecadores! Havia-se ido o tempo em que a cartola em um homem demandava algum respeito.

O padre balançou a cabeça, desconsolado. O coroinha tratava de arrumar a igreja. Seu Demóstines, pediu licença para se retirar, que sua esposa o esperava ainda para o almoço, e saiu.

Que domingo era dia de missa. Mas também era dia de coito. E outras damas esperavam ansiosas pela cartola de seu Demóstines. Que voltaria só ao anoitecer, para contar à esposa como tinha sido duro seu dia na paróquia.

A esposa, triste no olhar, diria: "Ahh, meu nobre marido, um dia ainda te acabam. É a terceira cartola que rasgas este mês, já não se fazem cartolas como antigamente".

Já não se fazem cartolas como antigamente. Ou talvez sejam os homens, ou os coitos.