Caindo
Cairam-lhe as batatas. Foi o que disseram. Estranhei. Devia ser coisa de gente do interior. Ou uma dessas expressões que aparecem em diálogos de família, como quando o pai ameaça que Você vai acabar como aquele inútil, e a mãe logo replica que, maldita hora em que se casaram, ele não deveria falar assim do irmão dela. Talvez fosse só uma gíria secreta de grupo: Nos encontramos na rua do gato, Que gato, Do gato da velha. E já então todos saberiam do local do encontro, chegando somente na hora devida, para não dar bandeira na frente da casa da velha que, a essa hora, já devia ter se dado conta que o gato desapareceu.
Pois cairam-lhe as batatas, era o que eu dizia. Ou melhor, o que disseram. Ouvi, eu dizia. Entenda. Não havia explicação. Cairam-lhe as batatas. Repliquei. Insuflei meus conhecimentos hortifrutículas e filho de cidade grande, nunca antes tendo visto um batateiro, insinuei se tratarem das batatas de alguém, que batatas não se davam em árvores. Fiz mira. Acertei. Mas não disseram nada de especial sobre quem as carregava.
Talvez um dito, combinei. Dos raros que não haviam ido ao populacho, ao lugar-comum. Cairam-lhe as batatas, poderia se dizer da moça que já aparentava uma certa idade. Do time do Corinthians - São Jorge nos proteja - com a colocação caindo mais do que as batatas. E nos saudosos debates políticos, aquela última pergunta que fez cairem as batatas do candidato de situação.
Pois me enganei. Apontaram, alí, para o fim da rua. Coisa muito mais grave. A senhora que saía do supermercado com o vital do almoço, aquele saco plástico com quilo e meio de batatas. Que se rompeu. Corriam pelo chão. E também ela em desespero para contê-las. Das tristezas da vida. Olhei. Partiria se não fosse impossível ajuda-la. Cairam-lhe as batatas.

