Contos de Natal

Que o papai-noel é invenção da Coca-Cola e que o dia de natal de verdade é lá pelo fim de fevereiro todo mundo já sabe. O que ninguém sabe são as histórias dos natais antigos realizados no Brasil. Quem me contou essa história foi o grande historiador E. Passarinho, que, dizem, é o maior entendido de temas históricos nacionais da América Latina.

Ao que parece, o primeiro natal realizado em terras tupiniquins que incluia a tal da véspera ocorreu em 1836. Regente Feijó, que não era besta nem nada, tava afim de dar um pega na filha mais nova de Araújo Lima. Só que a moça era do tipo difícil e o regente foi ficando cada vez mais doido para pegar a jovem Marieta Lima. Depois de muito papo conseguiu convencer a moça, mas tinha uma condição: tinha que despistar pai que, além de ciumento, tava tentando guardar a filha para o D.Pedrinho.

Feijó pensou em aproveitar a ceia de natal, já que era Dezembro e a próxima comemoração oficial seria só na Páscoa. A princípio, Marieta não gostou. Segundo a moça, ia dar muito na cara os dois sumindo no meio do almoço.

Feijó resolveu inovar. Chamou toda a assessoria do palácio e ordenou que arrumassem os quartos para cento e cinquenta hóspedes, praticamente toda a aristocracia do Rio. A festa começaria na noite da véspera e iria até o dia seguinte. Quem quisesse dormir, dormia, quem quisesse comer, comia.

Festa arranjada, convites distribuidos, Marieta tava no papo. Feijó, além de conseguir pegar o piteuzinho da filha do Lima, de quebra tinha inventado o conceito de festa 24 horas, que até hoje só serve pra pegar mulher vencendo pelo cansaço.

No final deu quase tudo certo. Feijó levou a pequena Marieta para o quarto, enquanto toda aquela gentalhada bebia. Só que o pequeno don Pedrinho, que também não era bobo, fugiu da babá que ficava com ele no quarto e resolveu se esconder na festa para tentar ver alguma sacanagem. Graças ao destino, acabou se enfiando no quarto em que Feijó pegava a Marieta. Acabou sendo descoberto e o caso foi abafado pelo regente.

Dizem que Araújo Lima ficou sabendo, mas deu a entender que não. Fez a cabeça do Pedrinho dizendo que, se o moleque confiasse nele, deixava ele fazer tudo o que ele viu. Araújo Lima virou regente no ano seguinte. E a história tratou de apagar a importante marca de Marieta Lima em nosso período regencial.


Em noite de natal, moça de bem não fica andando pela rua. Voltando pra casa, ele encosta o carro, pede para entrar e ela entra. Hoje eu preciso conversar, pode ser na minha casa? Ela se ajeita no banco do passageiro.

Ele abre a porta de casa, deixa ela entrar na frente. Se ajeite no sofá, que eu vou pegar alguma coisa pra beber. Na cozinha, escolhe alguns salgadinhos de caixa, pega uma bebida, os copos de cristal. Tudo pronto, mas ainda faltavam a bandeja e os guardanapos.

Terminava de arrumar tudo quando ouviu a porta batendo. Voltou correndo pra sala: ela tinha sumido. Correu para conferir a carteira e a chave do carro. Contou o dinheiro. Reparou na estante de CD aberta. Faltava aquele duplo de natal do Roberto.

Em noite de natal, moça de bem não fica andando pela rua.


Outros contos: Natal na barca, Lygia Fagundes Telles; O Peru de Natal, Mário de Andrade; Jingle Bell prá vocês, Mário Prata.

Aliás, todo o site do Projeto Releituras é bem bom.